Por que é tão difícil lidarmos com a verdade? Veja, me incluo nessa conjugação verbal de pessoa, pois o que levanto aqui nesta reflexão me diz respeito também. Teimamos em querer ver coisas que não existem perante a nós, porque as ilusões da nossa imaginação trazem sensações que nos apetecem mais. A imaginação se torna um mecanismo de defesa da realidade. E por que nos defendemos tanto dela? Concluí ontem a noite que é porque nos apegamos ao que é confortável para nós. Porque o conforto implica o menor esforço possível para fazer qualquer coisa, e como nós estamos acostumados com o que é automático, o que é rotineiro, o que toda essa sociedade de consumo nos joga no rosto desde que nascemos, achamos que esta é a maneira de passarmos por esta vida.
Fala-se muito de consumo. Consumimos produtos e serviços diariamente, aprendemos a associar consumo com bens materiais. No entanto, em realidade, o que nós consumimos também são as pessoas. Você sabe o que significa que “consumir”? “Destruir em partes, aniquilar, de tal maneira que não seja possível juntar as peças, consertar.” Não é isso que fazemos quando objetificamos as pessoas? As consumimos. Objetificamos as pessoas diariamente, se não estivermos atentos. Passamos a quantificar o quanto alguém nos admira pelo número de curtidas que temos. Transformamos o afeto em um algoritmo.
Quando percebi isso, quando me dei conta de quem eu era, em realidade, caiu em mim o peso das responsabilidades de todas essas escolhas que fiz. O problema maior é que aquele que está disposto a ver a verdade e a oferecer a sua verdade ao mundo, o mundo não o aceita, o repele, o tal do inconsciente coletivo, que agora eu entendo melhor. Se eu não for como o resto do mundo, eu não me encaixo, e se eu não me encaixo no mundo, qual é o meu lugar? O que é que estou fazendo aqui? Essas são as perguntas imediatas que eventualmente você se perguntaria. São as que me fiz. E se você não tiver coragem de enfrentar suas escolhas, de assumir suas responsabilidades de ser quem é, a única saída que há é fingir. É ser desonesto consigo mesmo. É se anular em prol do coletivo. É me unir à massa que tem medo da verdade. É escolher me prender numa gaiola mesmo sabendo que posso voar livre.
Hoje, entendo tudo com mais clareza. Já consumi muitas pessoas, e fui consumido por várias outras. Recentemente, parti numa jornada em busca das minhas verdades, e necessariamente (porque é assim que deve funcionar) passei a ser mais verdadeiro com as minhas relações. Tem gente que teve medo de mim. Tem gente que sentiu raiva de mim. Tem gente que não soube lidar com as verdades e fugiu. Aprendi por experiência que o Amor é a Verdade. O Amor não nos traz medo, não nos traz fuga. O Amor nos traz confiança total. Confiança naquilo que eu nem sei o que me espera. Jesus repetia muito o pedido “confia”. Se confio em você, te Amo. Ao contrário do que se aprende nos cursos de Letras, amar é sinônimo perfeito de confiar. Mas se temos medo ou receio da relação que temos com os outros, não os amamos. Queremos amá-los, sim, mas não os amamos. A desconfiança nos limita.
Vivo num mundo onde a maioria não aceita isso. Vejo pessoas que repetem os paradigmas porque a repetição traz conformidade. Eu, que agora optei por ser eu mesmo, não tenho lugar no mundo. Se eu não fingir ser outra pessoa, se eu não seguir o que todos fazem, sentir, fazer, beber, ter, querer ser, o que as pessoas fazem, sentem, bebem, têm, querem ser então sou excluído do todo. Vivo esta vida em solitude, ainda que eu Ame todas estas pessoas. Não foi assim que Jesus passou a vida dele aqui? Talvez ele tenha deixado este exemplo a ser seguido, quando nos sentíssemos fora deste mundo: “Sê caminhante que não se detém.”
A repetição não gera mudança. As pessoas vivem nas relações de conveniência. Elas chegam umas às outras quando lhes convém. Quando estão em falta de algo, elas chegam em busca desse algo que acham que lhes falta, como se entrassem numa loja de conveniência. Isso é consumir as pessoas. Quando elas precisam de você, elas aparecem. Quando não precisam mais, somem. As pessoas “amam” por necessidade de sobrevivência. Amam como vão ao supermercado. Consomem e nos descartam.
Não as culpo, eu já fui assim também. Eu não me valorizava também, e buscava agregar valor com as outras pessoas e o que elas faziam para mim. Eu não me amava, não confiava em mim mesmo. Eu vivia na conformidade, na segurança daquilo que eu tinha certeza que aconteceria. Assim eu não teria nunca medo de nada e nem ninguém. Se me apego ao passado, eu possuo controle total daquilo, pois ele já foi, eu sei de tudo dele.
Acontece que agora eu confio. E isto me trouxe um Amor aqui dentro que só se expande. Ainda estou aprendendo sobre isso tudo, são as experiências e os relacionamentos que nos fazem enxergar coisas que não víamos antes em nós mesmos. Espero que você um dia se encontre de verdade, e descubra que não precisa querer buscar repetir o passado só porque ele lhe traz uma falsa noção de segurança. Peça ajuda, queira se descobrir de verdade. É tão transformador! E quando você estiver pronto, lembre-se que estarei sempre presente, porque só o presente existe. Confia em mim?
Estamos todos nesta vida de passagem, é como se viajássemos para outro país. O objetivo é justamente se sentir livre. Se sentir que não pertencemos a um lugar só. Ser livre é não pertencer. Aceite a sua verdade, não consuma mais as pessoas. Não se consuma. Se Ame verdadeiramente.
Eu finalmente entendi por completo o que Renato Russo escreveu na música “L’Avventura”, de seu último álbum “A tempestade”.

