Nos imaginemos em um navio, velejando em alto mar. Ao nos debruçarmos em seus limites laterais, miramos nosso olhar às águas. Se olharmos atentamente, se com os olhos fixos em uma área específica estivermos, o que veremos? Dependendo da claridade daquele dia, podemos ver os corais, os bancos de areia, os peixes. No entanto, se por um segundo desviarmos nosso olhar para a água em si, o que veremos? Veremos nossos reflexos, a água se tornará nossos espelhos. Desse modo, o mar carrega em si mesmo a profundidade e a superfície. A distinção entre os dois se torna, então, responsabilidade única daquele que o mar observa.
Ao plantar meu olhar sobre a superfície das águas, se estas estiverem em movimento, não conseguirei atravessar aquilo que lhes cobre a face. Ou seja, se colocasse minhas mãos dentro da água, e se as movimentasse, criando assim pequenas ondas e marolas minúsculas, eu não conseguiria enxergar o que existe na profundeza. Ao movimentar sua superfície, só vejo o que dela reage.
No entanto, se eu quiser alcançar suas profundezas, preciso apaziguar as águas. Quando elas pararem de produzir ruídos na superfície, eu conseguirei ver além dela. Nós somos como os mares. Enquanto estamos uns com os outros, estamos em constante movimento, ainda que em atrito ou em fluidez. E como esta é a experiência mais frequente entre nós, nos acostumamos com a paisagem, e passamos a aceitar que a vida se resume a isto.
Passamos na vida dos outros, velejamos em suas superfícies, porque o passar acontece em movimento; por sua vez, o movimento gera ruído, e quanto mais ruídos, menos conhecemos uns dos outros. Superfície significa “sobre a face”, enquanto que profundidade significa “em direção à raiz”. Para nos aprofundarmos, é preciso calma, pois o movimento à raiz acontece de forma quieta. É no silêncio que eu consigo ouvir a voz que me chama.
O autoconhecimento é a busca da profundidade, o conhecimento é a superfície. Saber quem você é interessante, mas ver quem você é sua verdadeira busca. Nós só conseguimos ver nos outros, aquilo que temos escondidos em nós mesmos. Pois, como muitos Mestres e Mestras já nos ensinaram, eu não existo só. Eu sou você, e você é eu. No fundo, não há separação.
Jesus se dizia o Filho Eterno, porque em realidade, todos nós somos Ele, e por conseguinte, somos todos irmãos apenas em superfície, somos um só Filho Eterno em profundidade. Nascemos da profundeza do útero, viemos à superfície para nascer, e ao morrermos, voltaremos à profundeza do solo.
Não há felicidade maior do que aquela na qual você descobre quem você é. A profundidade é aquilo que busco. Quando encontrar alguém com a qual possa compartilhar essa profundidade, nela você encontrará o Amor. A superfície é passageira. Aquilo que é eterno que é profundo.
Não tema se aprofundar nos seus silêncios… Por mais escuro que seja o fundo do mar, lembre-se que quanto mais profundo você for, você não mais existe, apenas o outro existe em você. Quanto mais profundo você estiver, mais o mar você se torna.
O verdadeiro caminho é aquele no qual você não caminha.

