Uma proposta angustiante – Parte 2

Há dez anos, escrevi para o site Vista-se uma proposta angustiante. Eu tinha 21 anos, e vivia em conflitos internos, todavia, gostaria de poder atualizar aquele texto pelo qual não sinto a menor vergonha de deixá-lo disponível aqui para quem não o leu. Afinal, por mais que algumas visões nele inseridas já não condizem com meu pensamento atual, elas serviram de ponto de partida para que eu desenvolvesse as minhas.

Rolou os Emmys outro dia, e um dos ganhadores, em seu discurso de agradecimento, cita seus filhos, sobrinhos e netos, e faz um pedido a eles: “Salve-nos”. Ele não foi o primeiro que fez um pedido deste, obviamente, mas o usarei como referência para desenvolver algo que deve ser refletido: a ideia de que é sempre a geração futura que deve limpar os erros das anteriores. É como aquelas pessoas que vão para uma festa, e sujam tudo, bagunçam tudo, e quando estão cansados, simplesmente se vão com a consciência tranquila sabendo que há quem limpe para eles depois. Saber que há quem resolva os problemas que criamos é muito reconfortante. Mas, definitivamente, não resolve nada, apenas perpetua os problemas.

Em Manhattan, essa semana, ligaram um letreiro digital com uma contagem regressiva, marcando 7 anos, 100 dias, e algumas semanas, segundo eles, para o fim dos recursos naturais na Terra, e consequentemente, à “validade” da humanidade aqui. Penso que deviam ter começado a contar publicamente esse prazo desde, quem sabe, sempre? Aliás, um pequeno adendo, minha contagem regressiva neste blog não diz respeito à mesma contagem de Manhattan, contudo, coincidiu perfeitamente. (Mas não sinto pronto a discutir o real propósito dele ainda).

Enfim, se temos agora apenas 7 anos para resolver o que temos destruído desde sempre, é uma grande ilusão achar que vamos ter tempo para reverter tudo que já fizemos para o planeta, para a Natureza, e coincidentemente, para nós mesmos. Chegamos onde chegamos esperando que a geração seguinte resolvesse nossos problemas. E o futuro não existe, mas teimamos que exista um, para projetarmos para frente o que não queremos lidar agora no presente. Para fugirmos da nossa responsabilidade individual nos escondemos na ideia do coletivo, como bem previu Aldous Huxley em sua obra “Regresso ao Admirável Mundo Novo”.

Não é o coletivo que move o mundo, é o indivíduo. Cada indivíduo vivendo sua vida de maneira responsável mudará o seu mundo, e então, o mundo será diferente. É responsabilidade do indivíduo a mudança do coletivo. A filosofia budista apresenta essa mesma ideia, se quiser mudar o mundo, mude a si mesmo. A mudança só acontece por dentro, o reparo é externo. Uma casa mal estruturada pode ser reparada em seu exterior, mas quem conhecer como é lá dentro, saberá que ela continua caindo aos pedaços. Muda-se aquilo que se move, repara-se aquilo que está parado.

Dessa forma, há uma variedade de pesquisas, de documentários, de livros por aí apresentando o que precisamos fazer para mudar a nós mesmos. Mudar nossos hábitos, mudar a maneira como vemos o mundo, porque este último é o mais importante de tudo. Aquilo que vejo fora de mim é um reflexo do que tenho dentro. Aquilo que me incomoda no mundo é exatamente aquilo que eu tenho que mudar em mim mesmo.

Falam tanto de aquecimento global, de mudança climática, mas não param de consumir carne vermelha. Aliás, nem diminuem. Hoje, há provas irrefutáveis de que o consumo desenfreado da humanidade está literalmente consumindo o planeta, e ainda assim, há quem reclame do efeito forno do mundo e perpetue o problema consumindo. O veganismo é uma filosofia não é um estilo de vida. Ele deve caminhar junto com todos outros movimentos de ideais humanos, o veganismo engloba dentro de si a luta contra o racismo, contra o sexismo, contra a xenofobia, contra a escravidão ou servidão moderna. Dez anos atrás, falava-se de veganismo para se manter saudável, e hoje estuda-se sobre o impacto que a dieta vegana teria no futuro da humanidade.

O problema da humanidade é que o seu orgulho será o seu maior inimigo no fim dos seus dias. Porque as informações sobre o que podia ser mudado já nos foram dadas desde tempos longínquos e fingimos não ter tempo para recebê-las, para refletir sobre elas, para ponderar, e para escolher mudar ou não mudar. Leva-se muito tempo para que o humano aceite que ele é falho, para que aceite que ele não é perfeito, que suas ações não pensadas destroem a longo prazo. O humano é um ser que não acredita que apenas haja o presente, a não ser que esteja exercendo seu direito; enquanto tiver que responder por seus deveres, o humano cria o futuro para si mesmo.

Na primeira parte da minha proposta angustiante, havia apelado para que os humanos Amassem um aos outros, para que não houvesse distinções entre as criaturas. Contudo, corrijo-me: é preciso que o Amor parta de dentro do indivíduo pelo próprio indivíduo. E isto só acontecerá a partir do momento que ele queira se Amar.

Assim, a minha proposta angustiante, dez anos depois, é mais simples do que a anterior: “Conheça a ti mesmo”. Mas vá fundo nos seus defeitos, vá fundo naquilo que você é de verdade, não naquilo que você aparenta ser para si mesmo e para os outros.

Querer salvar o mundo é um sonho muito bonito, mas é impossível de realizar, sejamos francos. Ninguém nunca vai conseguir salvar o mundo, porque o mundo por si mesmo não existe, o coletivo é uma ideia abstrata. O que existe é o indivíduo. Quem existe nessa mudança é você. Então, pare de querer empurrar uma plateia nas ruas ou nas redes sociais para exigir mudanças, se o seu exemplo é que vai despertar o desejo de mudança nos outros. Não é gritando a todos por atenção que vai resolver qualquer coisa.

É no silêncio interno, é naquele momento que você está só consigo mesmo, e seus pensamentos, que você vai encontrar a solução para os seus problemas. É nessa jornada em descobrir-se que você vai encontrar a força, e a responsabilidade de viver como um verdadeiro humano.

Nós vivemos numa sociedade já muito defeituosa, não adianta decidirmos agora que a maneira como ela está agora não serve mais, querer que exploda tudo, e que tudo vai renascer como devia ter sido no começo. Não vai acontecer assim, enquanto houver sempre os mesmos tipos de indivíduos na face da Terra.

Podemos usar as tecnologias criadas que nos exploram tanto, que nos deixam viciados, que nos deixam distraídos de nós mesmos, para nos ajudar. Podemos usar tudo aquilo que jogaram para nós como maneira de nos prender dentro de ilusões, para que possamos nos libertar destas mesmas ilusões. Em vez de ficarmos discutindo e batendo de frente uns com os outros, por que não investimos essa mesma energia e força para discutirmos e batermos de frentes com nós mesmos?

Reclamar é preciso, surtar é preciso, expressar nossas raivas e tristezas é preciso, sim. Enquanto não pudermos sentir a força do Amor por nós mesmos, e direcionar essa força para a nossa própria mudança interna, sou a favor de usar a nossa força do ódio. Use essa força do ódio pela injustiça presente na sua vida, e crie algo dentro de você que um dia possa ser perpetuada com a força do Amor. O ódio e o amor são dois pólos da mesma coisa, é como Martin Luther King Jr. e Malcolm X, dois movimentos em busca de um mesmo ideal mas baseados cada qual com um dos pólos da força.

Esvazie-se do mundo. Canse-se do mundo. Encontre o seu equilíbrio. Encontre a sua balança. Há muito o que se resolver no mundo, e sinceramente, em 7 anos não vai dar tempo de mudar tudo. No entanto, se você quiser mudar seus pequenos hábitos: mudar sua alimentação, mudar seu uso de tecnologias, mudar como age com as pessoas, mudar que horas vai dormir, mudar como cuida de si mesmo, mudar os detalhes e não o contexto da sua história…

Daí então, eu te garanto: no momento seguinte, você não será mais o mesmo, e como reflexo, o mundo será outro.

Aos 41, escrevo a parte 3 desta proposta angustiante, se eu ainda estiver aqui entre vocês. Enquanto isso, parem de fingir que não sabem o que fazem.

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