Cris

A cada dia que entro numa sala de aula, sei que sou parte de seu legado. Seu Amor por aquilo que fazia tomou conta do meu caminho, e de você me tornei uma extensão dele mesmo. Eu não me dei conta disso no dia que a conheci, eu era muito jovem, e definitivamente não queria estar lá. Devo minha vida a duas Cris: a primeira, que se tornou minha mãe nesta vida; e a segunda, que se tornou minha primeira professora de um curso de inglês, e a quem dedico este depoimento. Estive ensaiando este texto há muito tempo, Cris, e eu não sabia bem como começar. Mas, hoje, eu sei que você nunca morreu, e que eu e você vivemos um no outro. Todas as vezes, como disse, que abro a porta de uma sala de aula e começo a ensinar meu inglês para meus alunos, sei que você está em cada palavra que pronuncio a eles.

Eu nunca quis dar aula, nunca me imaginei entrando numa sala de aula para escrever qualquer coisa num quadro branco. Não queria sair da minha preguiça e rebeldia da adolescência. No entanto, a primeira Cris não me deu escolhas, e disse que eu ia, sim, fazer um curso de inglês. E ela escolheu a escola. E quando fui matriculado na turma de básico às terças e quintas, das três às cinco da tarde, eu não sabia que, mais uma vez, o Pai tinha planejado um caminho fascinante para mim, a partir dos meus quatorze anos.

E logo no primeiro dia, seus olhos azuis que pareciam feitos de vidro me cativaram. A cada aula, a cada lição nova, eu descobria que meu mundo crescia. Toda vez que entendia mais e mais daquilo que falava, e você me dizia: “Víctor, com o inglês você vai realmente descobrir o mundo!”, eu ficava imaginando o dia que eu falaria fluente como você. Ficava imaginando quando chegaria o dia no qual eu pronunciaria o bendito “th” certo. Ou quando eu iria entender a música do The Smiths que minha mãe deixava tocando na sala. E os anos do curso foram passando, e eu lembro como se fosse hoje, o dia que consegui ler corretamente o “th”, e você olhou para mim satisfeita e abriu aquele seu sorriso, dizendo: “There you go! See? Você conseguiu!”.

Hoje sou eu que faço isso. Hoje sou que sinto isso, por você. Tenho tantas memórias boas das suas aulas, e dos seus conselhos. Afinal, tive a sorte de pegar a melhor professora para ficar comigo desde o início até o fim. Sete anos juntos, se descobre muita coisa sobre um e outro, a confiança germina com mais facilidade. Lembro de quando me formei na faculdade de Letras, e mandei e-mail te contando como eu estava, o que fazia da vida, e você sempre, sempre, respondia.

Até que um dia eu consegui entrar na escola de idiomas que trabalho no momento, e lhe mandei um último e-mail. Eu queria que você sentisse orgulho de mim, porque naquela época eu não acreditava em mim mesmo, e quem sabe, se você soubesse, eu poderia passar a acreditar? Eu estava perdido, morrendo de medo, estava cada vez mais longe de mim. Enfim, esse e-mail não deu tempo de você me responder… Achei estranho e fui atrás do seu nome no Google, e acabei trombando com um boletim dizendo que havia partido, vítima de câncer. Eu não chorei aquele dia, eu não conseguia. Guardei muito tempo essas lágrimas, que choro agora…

Me sinto lisonjeado por ter sido seu aluno. Perdi uma única aula em sete anos de curso, e me pergunto até hoje como foi aquela aula que perdi. Contudo, tenho certeza (e tenho mesmo), que você vai me contar sobre ela quando chegar a vez do nosso reencontro. Você fez uma baita diferença na minha vida, e não digo mais que você faz falta porque eu sei que você nunca partiu do meu coração. Amo você, como aquela música do Led Zeppelin que você gosta: whole lotta love.

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