Confluência

Eu imaginava que bastava ter gostos parecidos de músicas, ou desenhos animados, que isso já era o bastante para chamar qualquer garoto de “meu amigo”. Lembro de, no intervalo da 4ª série, me sentar com um grupo de meninos, e ficarmos cantando juntos “Pais e Filhos” da Legião Urbana, e ficarmos felizes por cantar especialmente um verso: “Meu filho vai ter nome de santo”. Nós todos tínhamos nomes de santos, mas deles não tínhamos nada. Os chamava de meus amigos porque tínhamos os mesmos gostos quase que para tudo que nos rodeava, mas não sabíamos muito de nossos detalhes. Está certo que éramos jovens demais para querer se importar com eles, todavia, ainda assim, penso que não devíamos nos chamar de amigos, no máximo fomos colegas de escola mesmo.

Sou de uma geração na qual as amizades que as gerações passadas cultivavam de maneira mais próxima, mais “analógica” (no sentido de “não-digital”), se tornou um evento raríssimo de acontecer. E acho que a melhor coisa a fazer, nós que somos dessa geração, é começar por aceitar que aquilo que nossos pais tiveram, não teremos mais. Como as coisas todas são impermanentes na Vida, não seria de se assombrar que também o modo de encontrar os amigos fosse mudar.

Com a invenção da internet e das redes sociais é possível agora fazer amizades com mil pessoas diferentes, dentre as quais, apenas 5% você realmente irá conhecer pessoalmente. E com a necessidade que nos impuseram de ter que publicar tudo que fazemos nas nossas vidas, o que comemos, onde fomos almoçar, com quem estávamos, onde estacionamos nossos carros, entre outras coisas… Toda essa imposição indireta de que é preciso revelar detalhes das nossas vidas para que sejamos aceitos dentro de um determinado grupo de pessoas que fazem o mesmo, fez com que nos esquecêssemos daquilo que realmente importa na hora de se ter amizades: a nossa essência.

(…) “Quem vive na essência
Não se prende a nenhuma aparência.”


(Lao-Tsé, trecho do aforismo 52 em “Tao Te King”)

Há quem tenha sorte de ter (ou tido) pais que são (ou eram) verdadeiros amigos. Eu tenho a minha mãe. E sei que ela é minha amiga, porque não só me dá suporte quando estou no caminho certo, como também briga comigo quando desvio do caminho. Porque verdadeiros amigos são aqueles que, faça chuva ou faça sol, estarão ao seu lado. Que vão falar as verdades que você quis não ouvir por tanto tempo. Que vão te abraçar quando precisar, emprestar os ouvidos quando quiser desabafar, ou emprestar a voz quando não ter forças mais para dizer o que é preciso ser dito. De certa maneira, aprendi o que é ser amigo pelo reflexo dela, e ajo muitas vezes da exata mesma maneira que ela age com quem considera seus amigos.

É possível encontrar pessoas a quem chamar de amigos hoje em dia? Primeiro, eu tenho que acreditar que sim, senão ficaria louco. E, segundo, tenho que concordar que é algo muito difícil de fazer, mas não impossível. Já encontrei alguns, está certo que não dá nem para contar todos em uma única mão, mas não me importa a quantidade. Como diz o Cortella, é preciso encontrar a qualidade na quantidade.

E como fazer para encontrar os verdadeiros amigos? Encontrando sua própria essência. Encontrá-la significa encontrar aquilo que você é, sem acessórios, sem ego, sem máscaras. Apenas no silêncio, seja ele devido à alguma felicidade ou à alguma tristeza, você se encontrará consigo mesmo. Apenas cavando muito o solo, você encontrará suas raízes, principalmente se você for uma árvore alta, tentando alcançar os céus. No momento que descobrir quem é, ficará mais fácil diferenciar quem são seus verdadeiros amigos.

“Inteligente é quem outros conhece;
Sapiente é quem conhece a si mesmo.”


(Lao-Tsé, trecho do aforismo 33 em “Tao Te King”)

Como todo o desejo gera infelicidade, basta apenas que reconheça sua essência, e assim, eventualmente, os seus reflexos vão aparecer. Quem busca qualquer coisa que seja, é porque se esqueceu que já a tem dentro de si, e portanto, sua busca só trará frustração e ira. Revele-se, e toda a Verdade será revelada em conjunto, e perceberá que nunca esteve só.

Atualmente, eu observo muito as pessoas ao meu redor. E, graças a isso, me enxergo em algumas. E, naturalmente, algo em mim desperta a vontade de ajudar. De ouvir. De falar. De partilhar. De ser em conjunto. De aprender. De desaprender. De desapegar. De dar risada juntos. De enraivecer-se juntos. De amar.

“Há algo além do Amor. É confluência. É a perda do ego de um na amada Essência do outro. E então já não há mais um e outro. Confluir é um entranhar-se irreversível, no qual já não existem dois, mas sim apenas Um, que É.” (Hermógenes)

Quando se descobre quem se é e quem não se é, só importa a jornada em si. E, querendo ou não, já estou te levando comigo. Fazer o quê?

Deixe um comentário

Crie um site como este com o WordPress.com
Comece agora