Convívio

Desde pequenos nos ensinam a nos esconder atrás de máscaras, pois só assim seremos aceitos pelos outros. Nos ensinam que a regra número 1 do jogo da vida é a de não ser quem na realidade é. Quando a criança nasce, ela não é uma criança única no mundo, ela se torna a criança daquela mãe e daquele pai, e pertence àquela família com sobrenome Xyz. É roubada dela a chance de ser quem é, de trazer à vida algo que só pertence a ela e ninguém mais: sua personalidade. No entanto, desde que nasce, lhe é dada uma máscara.

Com ela, a criança poderá desenvolver seu ego, e facilitará o desenvolvimento dos egos alheios. Todos crescerão pensando que são aquilo que têm, que têm aquilo lhes foi dado e não aquilo que semearam. Apenas o convívio com as máscaras será o bastante para dizer que se conhecem. Qualquer um que queira retirar a máscara, perceberá que sua imagem natural é feia, e portanto, não deve ser revelada nunca. A sociedade, as pessoas, nunca aceitarão a realidade de como você é, então é melhor permanecer com as máscaras no rosto. Tem gente que, há tanto tempo veste máscaras, que nem sabe mais como era o seu rosto de nascimento. E para isso, guarda uma coleção de fotos de si mesmos, para poder dizer quem era.

Mostrar quem realmente é significa se arriscar no desconhecido. Significa também receber a desaprovação de quem não concorda com você, receber os nãos quando esperava os sins. Retirar as máscaras é como dizer aquela frase famosa: é dar a cara a tapas. Escolher revelar quem é de fato é sinônimo de doer. Porque o mundo não está interessado naquele que é diferente dele, nos querem e já conseguem todos iguais porque é mais fácil nos controlar. Mais fácil controlar o oceano do que cada gota separada.

Vivi muito tempo por detrás de máscaras, e criei inúmeras para mim. Hoje, quando me revelo para os outros, dizem que não me conhecem mais. E se decepcionam. Vesti máscaras para que gostassem de mim, para que fosse aceito entre eles, todavia, me anulei no processo. Por medo de ferir os outros acabei me ferindo aos poucos. A cada dia, a cada ação, no qual eu agia contra quem eu era, para agradar os outros, eu me afundava mais. E quando cheguei no limite, não tinha mais máscaras para usar. Meu rosto estava tão pesado de tantas máscaras vestidas, uma por sobre outra, que eu caminhava cabisbaixo. Literalmente ponto-final.

O mundo é feito de escolhas. Arrisque-se ser quem é como eu fiz, apesar de todas as máscaras feias que vá receber. Lembre-se que você está no mundo, não é o mundo. Não se importe se vão te aceitar ou não, pois a vida que você viverá, depende das suas escolhas, e cada escolha sua, terá a sua consequência, então, no final e no começo, a responsabilidade de viver é apenas sua. Quem não concorda com você, não é obrigado a concordar. Procure quem te respeite, e só vai encontrar caso respeite quem queira encontrar.

O convívio social traz a falsa ideia de que conhecemos as pessoas. Contudo, lembre-se: as pessoas só conhecem aquilo que permitimos que conheça. Nada é o que parece ser, afinal, como dizia Buda, “onde existe imagem sempre existe engano”. Não podemos ser definidos, pois estamos a todo momento nos transformando. Não preciso acreditar que sou a gota, nem que faço parte do oceano, basta que eu seja a onda.

Que tal abandonarmos esse lance de status para “sermus“?

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